A três dias do carnaval, blocos Pagu e Tarado Ni Você conseguem patrocínio e confirmam desfiles

Bloco Pagu Thais Itaqui/TV Globo A três dias do carnaval, blocos tradicionais de São Paulo que estavam ameaçados por falta de recursos confirmaram que vão d...

A três dias do carnaval, blocos Pagu e Tarado Ni Você conseguem patrocínio e confirmam desfiles
A três dias do carnaval, blocos Pagu e Tarado Ni Você conseguem patrocínio e confirmam desfiles (Foto: Reprodução)

Bloco Pagu Thais Itaqui/TV Globo A três dias do carnaval, blocos tradicionais de São Paulo que estavam ameaçados por falta de recursos confirmaram que vão desfilar após fechar patrocínio. Entre eles estão o Bloco Pagu e o Tarado Ni Você, que enfrentavam dificuldades para viabilizar os cortejos em meio às críticas ao modelo de financiamento da festa na capital. O apoio veio da cervejaria Amstel, do Grupo Heineken, que anunciou nesta quarta-feira (11) o patrocínio a quatro blocos históricos da cidade: Tarado Ni Você, Pagu, Agora Vai e Espetacular Charanga do França. Segundo a marca, o aporte assegura a presença dos grupos nas ruas entre os dias 14 e 17 de fevereiro. A confirmação ocorre após semanas de incerteza. Organizadores vinham alertando que, sem patrocínio, os desfiles poderiam ser cancelados, mesmo com o carnaval paulistano movimentando bilhões de reais na economia da cidade. Em 2026, a gestão Ricardo Nunes (MDB) reduziu em R$ 12 milhões o orçamento destinado à estrutura e à organização do carnaval de rua da cidade, que ficou em R$ 30,2 milhões — uma redução de 29%. Em 2025, a prefeitura investiu R$ 42,5 milhões na infraestrutura do carnaval, com patrocínio de R$ 27,8 milhões da Ambev. Do barracão à avenida: saiba como nasce um samba-enredo Neste ano, apenas 100 blocos foram contemplados pelo edital municipal de fomento, com repasses de até R$ 25 mil cada um — valor considerado insuficiente por organizadores. No caso do Pagu, por exemplo, o custo total para colocar o desfile na rua chega a cerca de R$ 250 mil. “O carnaval cresce, mas cresce de forma cara. Os blocos são muito diferentes entre si, e os modelos precisam ser repensados para garantir a viabilidade da festa”, disse ao g1 Mariana Bastos, fundadora do Pagu, bloco feminista que completa dez anos em 2026. Segundo ela, além do valor baixo, o edital não diferencia blocos pequenos, médios e grandes, nem leva em conta a estrutura necessária para cada desfile. “Os megablocos acabam atraindo a maior parte das marcas, enquanto iniciativas ligadas à cultura local ficam à margem”, afirmou. Em nota anterior, divulgada quando os blocos avaliavam suspender os cortejos, a Prefeitura de São Paulo afirmou que oferece “toda a infraestrutura para a realização do Carnaval de Rua da cidade, além de apoio financeiro”, mas ressaltou que “é de responsabilidade dos organizadores de blocos se viabilizarem economicamente para a festa por meio de patrocínio”. Desfiles confirmados Com o patrocínio fechado, o Bloco Pagu confirmou o desfile comemorativo de dez anos na terça-feira (17), no Centro de São Paulo, no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João. "A gente ficou no limite para conseguir produzir, a gente estava tentando se adiantar em algumas coisas, para caso a gente conseguisse de fato viabilizar o desfile, mas também preparadas para se não acontecesse, desmontar todo o esquema que estava sendo pré-produzido", afirmou Marina ao g1. “Nosso desfile só foi viabilizado por quem ajudou, durante toda essa construção do carnaval, o Pagu a virar o que virou em dez anos. É um movimento bem-vindo e por sorte deu tempo", disse. Já o Tarado Ni Você, que homenageia Caetano Veloso e cruza tradicionalmente a Avenida Ipiranga com a São João, sai às ruas neste sábado (14) a partir das 14h. O tema deste ano será “Cinema transcendental”. “A gente começa a planejar o carnaval em agosto, define tema, narrativa e modelo comercial para falar com as marcas a partir de setembro. De repente, tivemos que condensar três ou quatro meses de trabalho em apenas uma semana, o que tornou esse período extremamente desafiador”, afirmou Rodrigo Guima, um dos fundadores do bloco Tarado Ni Você, ao g1. Antes do anúncio do patrocínio, Guima havia declarado que o bloco manteria o desfile mesmo sem apoio, ainda que fosse necessário recorrer a recursos próprios e empréstimos bancários — alternativas classificadas por ele como “extremas” e sintomáticas do atual modelo de financiamento do carnaval de rua. “Chegamos a parar parte da produção e até conversar com bancos sobre possíveis empréstimos, porque o que a gente faz é caro. O desfile só voltou a andar quando o patrocínio foi confirmado, já que sem fomento público ou apoio privado fica inviável colocar o bloco na rua”, disse. O anúncio contrasta com o cancelamento de outros blocos tradicionais. O Bloco do Sargento Pimenta, por exemplo, informou que não vai desfilar neste ano em São Paulo por não ter conseguido patrocínio suficiente para cobrir os custos. Custos Colocar um bloco de carnaval na rua em São Paulo pode custar desde R$ 5 mil até mais de R$ 700 mil. A diferença não está apenas no número de foliões, mas no tipo de carnaval que o bloco representa, na forma de organização e na estrutura exigida para garantir segurança, som e conforto durante o desfile. “São Paulo não tem um carnaval só. São vários carnavais acontecendo ao mesmo tempo”, explica Zé Cury, coordenador do Fórum de Blocos do Carnaval de Rua. Segundo ele, é justamente essa diversidade que torna impossível fixar um preço padrão para um desfile. Um bloco pode custar pouco se for pequeno, comunitário e simples ou se tornar caríssimo à medida que cresce, se profissionaliza e precisa atender às exigências de segurança e infraestrutura, conta Cury. Ou seja, em São Paulo, o preço do carnaval acompanha a diversidade da cidade. “O carnaval começa com amigos tocando na rua. Mas, quando cresce, vêm a corda, o banheiro, a ambulância, o caminhão, a segurança. Aí a conta muda”, diz. SP terá 630 blocos de rua no Carnaval 2026 Em 2026, a gestão Ricardo Nunes (MDB) reduziu em R$ 12 milhões o orçamento destinado à estrutura e à organização do carnaval de rua da cidade, que ficou em R$ 30,2 milhões — uma redução de 29%. Em 2025, a prefeitura investiu R$ 42,5 milhões na infraestrutura do carnaval, com patrocínio de R$ 27,8 milhões da Ambev. LEIA TAMBÉM: SP terá ônibus e metrô com operação especial no carnaval; veja o que muda Saiba quem NÃO pode ser jurado no carnaval de SP 'Manual de sobrevivência' do carnaval em SP: veja dicas de segurança e saúde Para esta reportagem, o g1 dividiu os blocos em cinco tipos que coexistem na cidade. Confira a seguir: Blocos na quebrada Custo médio: de R$ 5 mil a R$ 25 mil Esses blocos surgem nas bordas da cidade e têm forte vínculo com o território. Muitos existem há décadas e desfilam para públicos de 500 a 2.000 pessoas, principalmente em bairros das zonas Norte, Leste e Sul. A estrutura costuma ser simples: paredão de som ou caminhonete com equipamento na caçamba; músicos voluntários ou bateria da própria comunidade; poucos custos com cachês. “Às vezes é o mesmo caminhão que durante o ano faz propaganda de açougue ou mercado e, no carnaval, leva uma bandinha em cima”, explica Cury. Mesmo assim, gastos mínimos são inevitáveis: isolamento do equipamento com corda, água e alimentação para a bateria e, em alguns casos, ambulância. Quando a comunidade decide melhorar o desfile, o valor pode chegar a R$ 20 mil ou R$ 25 mil. Blocos da classe média Bloco do Paulicéia, que desfila na Zona Norte de SP Divulgação Custo médio: de R$ 15 mil a R$ 40 mil São blocos criados nos últimos 10 a 12 anos por moradores que passaram a ocupar as ruas dos próprios bairros. Geralmente desfilam para públicos entre 3.000 e 10 mil pessoas. Aqui, o custo cresce porque entram itens como: aluguel de caminhão de som; pagamento de músicos ou banda; técnicos de som; alimentação e hidratação da bateria. “Um grupo de amigos pode fazer um bloco gastando R$ 15 mil, dividindo o valor entre eles”, diz Cury. A diferença está na qualidade da entrega: som melhor, desfile mais longo e maior estrutura de apoio. Criado há nove anos na Parada Inglesa, o Bloco do Paulicéia é um exemplo de bloco de classe média com forte vínculo comunitário. O público varia entre 5 mil e 7 mil pessoas, e o grupo promove ações sociais ao longo do ano, como arrecadação de alimentos. “No começo, a ideia era monetizar, mas acabou se tornando totalmente comunitário. O pessoal do bairro é muito engajado”, diz Alex Coelho, fundador do bloco. Segundo ele, o custo para colocar o bloco na rua, com bateria, músicos, som e estrutura de segurança, gira em torno de R$ 20 mil. Segundo a prefeitura, o bloco vai para a rua neste domingo (8), no Tucuruvi, Zona Norte, a partir das 13h. Blocos urbanos e empreendedores Cortejo do Bloco do Fuá, pelas ruas do bairro Bela Vista, em São Paulo WAGNER ORIGENES/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Custo médio: de R$ 25 mil a R$ 70 mil Esses blocos surgiram quando jovens aprenderam a batucar, gostaram da experiência e decidiram criar seus próprios desfiles, muitas vezes homenageando artistas ou estilos musicais. Mesmo sem ser “blocões”, alguns acabam atraindo públicos maiores por causa da localização. “Às vezes o bloco começa com 10 mil pessoas, mas termina com 40 mil porque outros blocos passam pelo mesmo trajeto”, diz Cury. Segundo Marco Ribeiro, fundador do bloco Fuá, que desfila desde 2013 na região do Bixiga, no Centro, com o propósito de celebrar a cultura popular brasileira, o custo anual do bloco gira em torno de R$ 50 mil, sendo o aluguel do carro de som o principal gasto. Para se manter, o grupo promove festas ao longo do ano. "O bloco faz oficinas o ano todo com a comunidade, para quem não sabe tocar, de canto e tudo mais. E a gente não recebe nada em troca disso, fazendo uma festa gratuita", afirma. Nesse cenário, o organizador precisa investir como se fosse um bloco grande: caminhão de som de maior porte; dezenas de cordeiros para isolamento; ambulância, produção e segurança. “Eu gasto R$ 25 mil rachando o caminhão com outro bloco. Se fosse sozinho, seria R$ 50 mil”, afirma Zé Cury, que também é um dos fundadores do bloco “Me Lembra Que Eu Vou", que vai sair às ruas no dia 16 de fevereiro, em Pinheiros, Zona Oeste. Segundo a prefeitura, o bloco Fuá vai para a rua no dia 15 de fevereiro, no Bixiga, a partir das 14h. Blocos ritualísticos Custo variável, com foco em qualidade e continuidade São blocos ligados a tradições culturais, religiosas ou projetos sociais permanentes. Muitos mantêm oficinas, formação musical e geração de renda ao longo do ano. Nesses casos, o investimento não é apenas no desfile, mas na qualidade da experiência para os músicos e para o público. “O bloco precisa parecer grande, mesmo sem ser um mega bloco”, diz Cury. O custo cresce conforme o público passa da faixa de 10 mil a 30 mil pessoas, quando passam a ser obrigatórios caminhão robusto, isolamento, técnicos e equipe de produção. Blocos de grande porte Bloco Tarado Ni Você leva multidão ao Centro de SP Darlan Helder/g1 Custo médio: de R$ 250 mil a R$ 700 mil (ou mais) São os blocos com dezenas ou centenas de milhares de foliões, presença de artistas conhecidos e estrutura comparável à de grandes eventos. O custo inclui: dois ou três trios elétricos com som interligado; cachês artísticos; empresas de segurança; ambulâncias próprias; equipes de produção que podem chegar a 70 pessoas. “Para o Baixo Augusta desfilar, o gasto passa de R$ 700 mil”, afirma Cury. Mesmo com apoio da prefeitura — com postos médicos e policiamento —, grande parte da conta fica com os produtores e patrocinadores. Segundo Rodrigo Guima, um dos fundadores do bloco Tarado Ni Você, que reúne mais de 100 mil pessoas no carnaval em São Paulo, o custo para colocar o bloco na rua é de cerca de R$ 400 mil. "Nossa planilha é de R$ 400mil, com cachês de fornecedores negociados a menos, sem que os fundadores ganhem um real pelos seis meses dedicados de trabalho, ou que o bloco faça algum tipo de caixa", afirma. "Se formos contabilizar cachês melhores e fundo de caixa para o bloco, aí seria muito mais. Esse é o valor de custo para pagamento de fornecedores com o piso de categoria." Além disso, independentemente do tipo de bloco, a exigência de segurança aumentou nos últimos anos. Planos detalhados, brigada de incêndio, isolamento, ambulância e documentação técnica do caminhão são obrigatórios. “Quanto mais serviço você entrega, mais custa. Esta é a lógica”, resume Cury.