Ameaças, perseguição e nudes falsos: ataques online à família de jovem assassinada em Hortolândia são ‘ódio pelo ódio’, diz delegada

Polícia prende suspeito de ataques virtuais à família de vítima de feminicídio Os ataques virtuais sofridos pela família de Nicolly Fernanda Pogere, assas...

Ameaças, perseguição e nudes falsos: ataques online à família de jovem assassinada em Hortolândia são ‘ódio pelo ódio’, diz delegada
Ameaças, perseguição e nudes falsos: ataques online à família de jovem assassinada em Hortolândia são ‘ódio pelo ódio’, diz delegada (Foto: Reprodução)

Polícia prende suspeito de ataques virtuais à família de vítima de feminicídio Os ataques virtuais sofridos pela família de Nicolly Fernanda Pogere, assassinada aos 15 anos em Hortolândia (SP), não foram motivados por relação pessoal e são "ódio pelo ódio", segundo a delegada Lis Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) e responsável pelas investigações. ➡ A Polícia Civil deflagrou, nesta segunda-feira (13), uma operação interestadual e cumpriu mandados de busca e apreensão contra suspeitos de promover ameaças e perseguições aos familiares da adolescente. Cinco pessoas foram alvos da operação, sendo um adulto e quatro menores de idade. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp De acordo com a investigação, a mãe da jovem acionou a Polícia Civil e repassou o conteúdo dos ataques, que incluíam ameaças diárias, perseguição online (chamado crime de "stalking") e fotos íntimas falsas da menina - leia mais abaixo. "Não tem nenhuma relação com a família, é o ódio pelo ódio, é a violência pela violência, é o crime pelo crime. Não há justificativa, não há razão, não há nenhum vínculo que os aproxime da família", afirmou a delegada. Ainda segundo Salvariego, a Polícia Civil investiga se o assassinato foi transmitido pela internet e há a suspeita de que o crime tenha sido incentivado no meio virtual. Ataques, perseguição e ameaças A adolescente Nicolly Pogere, que foi assassinada em Hortolândia e a mãe, Priscila Magrin. Família vive em Mococa Reprodução/Facebook Hoje grávida de nove meses, a mãe de Nicolly, Priscila Magrin, contou que procurou a polícia depois que recebeu as ameaças pela internet de pessoas desconhecidas. "Desde que ela estava desaparecida, já vinha recebendo algumas mensagens bem misóginas, machistas, ofendendo a minha filha, me ofendendo, e aquilo já me assustou um pouco. Foi bem assustador desde o desaparecimento, mas quando aconteceu de fato dela ter sido brutalmente assassinada, e aí eu recebi as primeiras ameaças, eu fiquei extremamente assustada, chorei muito", relatou. De acordo com a polícia, as ofensas eram frequentes e, com o passar do tempo, se tornaram mais graves. Em alguns casos, os autores chegaram a marcar perfis de familiares em mensagens violentas e a narrar ameaças contra eles. Em uma das ameças, um perfil anônimo em uma rede social postou um texto e marcou na publicação. "A última imagem que tu viu dela foi de uma foto sorrindo, né? Se quiser, eu mostro uma foto da verdadeira última expressão dela durante seus últimos suspiros. Obrigado por não ter educado sua filha direito e ter deixado ela namorar um corno psicopata sem ela saber. Graças a você, eu e meus amigos nos divertimos muito", dizia o texto. Autores chegaram a marcar perfis de familiares de Nicolly Pogere em mensagens violentas e a narrar ameaças contra eles. Reprodução/EPTV "Eu sei seu CPF, sei onde tu mora, vou garantir que tu tenha um fim tão trágico quanto sua filha. Eu desafio você a me localizar aqui em São Paulo, tô camuflado no meio de milhões de pessoas", dizia outra mensagem. Segundo a delegada Salvariego, a família ainda tenta lidar com o luto e acabou sendo forçada a reviver o crime de forma contínua, por meio das agressões virtuais. “É diferente das lembranças que vêm naturalmente quando você perde um ente querido. Isso é uma revitimização cruel. A família ainda não teve tempo de digerir essa dor”, disse. "Perdi a minha filha, e lidar com ameaças, com deboches da morte dela, enfim, muitas coisas terríveis e vindo também muitas de menores de idade, o que é mais assustador ainda. Porque a gente realmente não espera que venha uma coisa tão brutal, tão horrível de menores assim", disse Priscila. Denúncias citam servidores usados para incitação de crimes Segundo Salvariego, a polícia recebeu denúncias apontando que os investigados participavam de servidores fechados na plataforma de mensagens Discord. “Esses servidores criados para fins criminosos dentro do Discord, eles servem exatamente para isso: para incitar esse tipo de crime, transmitir esse tipo de crime. Então, a gente acredita que tudo está caminhando para que a gente consiga comprovar ali que, de certa forma, houve esse planejamento online", disse. O g1 tenta contato com a Discord e a reportagem será atualizada quando obtiver retorno. Operação Polícia cumpre mandados contra ataques virtuais à família de vítima de feminicídio Segundo a investigação, os ataques foram direcionados a dois familiares da adolescente e começaram cerca de um mês após o crime. Durante a ação, um homem foi preso em Minas Gerais após a polícia encontrar material de abuso sexual infantil em dispositivos eletrônicos durante o cumprimento de mandados de busca. Os mandados foram cumpridos em: Presidente Prudente (SP) Bicas (MG) Belo Horizonte (MG) Ibirité (MG) Juiz de Fora (MG) Ananindeua (PA) Os pedidos foram feitos pela Delegacia Seccional de Casa Branca (SP). A operação mobilizou policiais de São Paulo, Minas Gerais e Pará, o que, segundo a coordenadora do Noad, reforça uma característica recorrente dos crimes virtuais. “O crime digital não tem fronteiras. Só que é o que a gente diz, não há anonimato nas redes. Pode demorar um pouco a mais, mas a gente consegue chegar nesses autores”, disse. A Polícia Civil informou que os investigados serão ouvidos e que a análise técnica do material apreendido vai orientar os próximos passos da apuração. O assassinato Nicolly Fernanda Pogere, 15 anos. Arquivo pessoal O corpo de Nicolly foi encontrado às margens da lagoa do Jardim Amanda I, em Hortolândia, em julho de 2025. A adolescente foi esfaqueada e esquartejada em um crime com "requintes de crueldade" e "violência extrema", segundo a investigação. O enterro ocorreu sob protesto e comoção em Mococa (SP), onde ela morava com a família. A investigação da Polícia Civil identificou dois adolescentes, de 17 e 14 anos, que confessaram o crime, foram apreendidos e tiveram a internação provisória decretada. O jovem de 17 anos era namorado de Nicolly, enquanto a adolescente de 14 anos mantinha um relacionamento com ele. Os dois foram localizados no dia 20 de julho, na casa da avó de um deles, no Paraná. Na época, segundo o delegado José Regino Melo Lages Filho, os adolescentes afirmaram que a vítima os teria atacado com uma faca e que reagiram. Para a polícia, porém, Nicolly foi atraída até a casa do namorado. "Eles não demonstram arrependimento, mas falam sim que não era isso que eles queriam e, quando perceberam o que tinham feito, resolveram fugir para não sofrer as consequências", explicou Lages Filho. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas