Tenente-coronel marido de PM morta foi condenado por abuso de autoridade contra colega: 'Objetivo de atingir sua dignidade'

Caso da PM morta em São Paulo. Fantástico Atitudes de abuso de autoridade do tenente-coronel Geraldo Neto, marido da soldada da PM Gisele Santana — morta co...

Tenente-coronel marido de PM morta foi condenado por abuso de autoridade contra colega: 'Objetivo de atingir sua dignidade'
Tenente-coronel marido de PM morta foi condenado por abuso de autoridade contra colega: 'Objetivo de atingir sua dignidade' (Foto: Reprodução)

Caso da PM morta em São Paulo. Fantástico Atitudes de abuso de autoridade do tenente-coronel Geraldo Neto, marido da soldada da PM Gisele Santana — morta com um tiro na cabeça — levaram à condenação do governo de SP em uma ação de indenização por danos morais movida por uma policial subordinada ao oficial. Na decisão, a Justiça reconheceu que ele praticou assédio moral quando ainda era major, com ações repetitivas que tinham o “objetivo ou efeito de atingir a autoestima e a autodeterminação, bem como sua dignidade”, causando danos ao ambiente de trabalho. A sentença foi proferida em outubro de 2024 pela 3ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública da Capital. No processo, a sargento Valéria Barreto dos Santos processou a Fazenda Pública alegando perseguições e acusações falsas feitas pelo então major Geraldo Leite Rosa Neto, que era comandante de um batalhão à época. Segundo a petição inicial do processo, a PM que moveu a ação relatou uma série de episódios que classificou como assédio moral e perseguição por parte do então major. Entre as situações citadas estão: Acusação de extravio de processos disciplinares, o que não foi provado, com o objetivo de responsabilizá-la administrativamente; Cobranças e fiscalização de horário consideradas excessivas e direcionadas especificamente à policial; Repreensões e críticas feitas diante de outros integrantes da unidade, o que teria gerado constrangimento público; Ameaça de transferência de unidade usada como forma de punição; Hostilidade no ambiente de trabalho após conflitos internos envolvendo movimentações de policiais mulheres na unidade. O estado, então, foi condenado ao pagamento de R$ 5 mil à autora da ação. “Aconteceram ações praticadas de forma repetitiva por servidor, em posição de autoridade, que abusando da autoridade que lhe conferia sua função, tinha por objetivo ou efeito atingir a autoestima e a autodeterminação da autora, bem como sua dignidade”, diz a decisão. Segundo o relato apresentado à Justiça, as acusações poderiam ter consequências graves dentro da estrutura da Polícia Militar, inclusive com risco de punições administrativas ou até demissão. Partindo de tal conceito, está claro, pela prova nos autos, que aconteceram ações praticadas de forma repetitiva por servidor, em posição de autoridade, que abusando da autoridade que lhe conferia sua função, tinha por objetivo ou efeito atingir a autoestima e a autodeterminação da autora, bem com sua dignidade, com danos ao ambiente de trabalho, com a somatória de pequenas ações, acrescidas da acusação falsa de extravio de documentos, que teria sido um falso motivo para o Major Neto transferir a autora para outra unidade 'Histórico ameaçador', diz advogado da família O advogado da família da soldada Gisele Alves Santana, encontrada morta com um tiro na cabeça afirmou nesta segunda-feira (16) que o marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, tem um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres. Segundo o advogado Miguel Silva, há registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras e também denúncias de assédio e perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial dentro da corporação. Durante entrevista coletiva, o advogado disse que o oficial deveria ter sido afastado das funções muito antes da morte da policial. Quando eu disse que o tenente-coronel é um violador, um assediador, já há muito tempo, eu fiz uma crítica ao comando da Polícia Militar e ao secretário da Segurança. Eu mantenho essa crítica, haja vista que ele deveria ter sido afastado já há muito tempo das suas funções Segundo a defesa da família, os episódios indicam um padrão de comportamento do policial. “É um histórico ameaçador, um histórico perseguidor”, disse o advogado. BOs por ameaça De acordo com Miguel Silva, uma ex-companheira do tenente-coronel registrou boletins de ocorrência contra ele entre 2009 e 2010. Segundo o advogado, em um dos registros a mulher relatou que sofria perseguições e perturbações constantes. “Tem um boletim de ocorrência de 2010 em que uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade.A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: 'o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte'”. Em outra BO de 2022, aponta Silva, a vítima relata que estava sendo ameaçada dentro do próprio apartamento. “Foi lavrado um BOPM em 22 de janeiro de 2022 em que outra vítima se queixa. O assunto é ameaça. ‘Está entrando dentro do meu apartamento o senhor major’”, disse. Perseguição contra PMs mulheres O advogado também citou um processo judicial relacionado a um episódio ocorrido em 2022, quando o oficial ainda era major. Segundo ele, a Justiça reconheceu que houve assédio moral contra uma policial militar subordinada em um caso envolvendo transferência de agentes mulheres. “Em 8 de julho de 2022, o servidor major Neto decidiu movimentar quatro policiais femininas para outro local de trabalho como forma de punição, sem apresentar motivos legais para a transferência. Passando a perseguir o efeito feminino, incluindo a requerente". De acordo com o advogado, a policial que levou o caso à Justiça afirmou ter passado a sofrer perseguições após questionar as decisões do superior. “A requerente passou a ser totalmente hostilizada pelo servidor major Neto”, disse. Segundo Silva, outras policiais também teriam relatado problemas semelhantes à Corregedoria da PM. Defesa de coronel sustenta suicídio Quase um mês após a morte de Gisele Santana, a defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto ainda sustenta a versão de que a soldado se suicidou com um tiro na cabeça no apartamento do casal em São Paulo. O caso ocorreu em 18 de fevereiro. “A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio", disse neste sábado (14) ao g1 o advogado Eugênio Malavasi, que defende o coronel Geraldo, da Polícia Militar (PM). "E isso será comprovado de foram cristalina ao final da investigação”. Já o advogado que defende os interesses da família de Gisele subiu o tom ao alegar que a morte da soldado foi consequência de um crime, o feminicídio — cometido, segundo ele, pelo próprio marido dela, o coronel Geraldo. A soldado da PM Gisele Alves Santana era casada com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto Montagem/g1 "Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe a polícia provar", disse o advogado José Miguel da Silva Júnior também neste sábado à equipe de reportagem. O caso, registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil. A hipótese de que a agente da PM se matou não foi descartada totalmente, mas também está sendo apurada a possibilidade de que a mulher possa ter sido vítima de feminicídio (saiba mais abaixo). A delegacia que apura a morte de Gisele ainda aguarda os resultados de laudos complementares da Polícia Técnico-Científica para concluir inquérito e sabe se houve suicídio ou crime. Reconstituição Ex-marido da PM Gisele Alves presta depoimento O coronel se afastou do trabalho na corporação após a morte de Gisele. Mas segundo a sua defesa, ele fez questão de participar da reconstituição do caso, nome popular que se dá a reprodução simulada do que pode ter acontecido. A reconstituição, feita por peritos do Instituto de Criminalística (IC), ocorreu no último dia 23 de fevereiro na residência onde o casal morava no Brás, Centro da capital. O escritório de advocacia que defende o coronel quer que ele volte a dar um depoimento no 8º Distrito Policial (DP), no Brás, após a conclusão dos exames periciais restantes, inclusive o complementar do laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML). Um médico do esporte que atendeu o casal dias antes de Gisele morrer será indicado pela defesa do coronel para ser ouvido como testemunha. Ele irá relatar que como Geraldo e a esposa foram ao seu consultório com um objetivo em comum de ter uma vida mais saudável juntos. Na sexta-feira (13), o ex-marido de Gisele Alves Santana compareceu ao DP para prestar depoimento. Segundo o advogado José Miguel, que representa a família da soldado e acompanhou o ex, ele afirmou que a soldado “nunca pensou em cometer suicídio”. Segundo ele, a filha que o ex-marido teve com Gisele, e que morava com ela, deverá ficar sob a guarda dele agora. O ex também comentou no depoimento que Geraldo não gostava da criança. De suicídio a morte suspeita Peritos e investigadores se reúnem nesta quarta (11) para tratar do caso da PM morta com um tiro na cabeça Gisele tinha 32 anos. Geraldo tem 53. Foi ele quem deu a versão à Polícia Civil de que a esposa se suicidou e quem telefonou para a PM pedindo ajuda. Segundo o coronel, após uma discussão, o oficial disse que pediu a separação e foi tomar banho. Um minuto depois, Gisele teria pegado sua arma e disparado contra a própria cabeça, pelo lado direito. Isso teria ocorrido sem ele ver. A família da soldado, no entanto, contestou a hipótese de suicídio, apresentou relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel e pressionou por uma reavaliação do caso. A Polícia Civil então reclassificou o episódio como morte suspeita. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida — categoria que inclui feminicídio, por exemplo. Laudos periciais reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial. Exames apontaram marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial, além de lesões contundentes no rosto e sinais de disparo à queima‑roupa. Além disso, agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de que a arma que matou Gisele estava ainda na mão dela _algo incomum em casos de suicídio. Dúvidas na versão do PM Depoimentos dos socorristas que atenderam a ocorrência envolvendo a PM Gisele Alves, em 18 de fevereiro de 2026. Reprodução/TV Globo Outros pontos que levaram dúvidas à investigação sobre a versão de suicídio. O fato de que Geraldo disse que tinha ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram até o apartamento. E de ele ter telefonado para um desembargador amigo, que foi até o local _câmeras do hall do prédio gravaram esse encontro. Depois de conversarem, o coronel tomou banho. Por decisão judicial, o corpo chegou a ser exumado para novos exames, justamente porque ainda havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte. A investigação não descarta formalmente o suicídio, mas também apura se Gisele foi vítima de feminicídio — hipótese defendida pela família e pelo advogado. Na avaliação da família e da defesa, a delegacia já teria elementos para pedir a prisão preventiva do coronel. “Existem requisitos para a prisão. Há várias testemunhas que têm pavor dele, houve alteração da cena da morte, o que já é suficiente para pedir a preventiva”, afirmou o advogado. Laudos: prontos e que faltam Morte de PM em apartamento levanta dúvidas: laudos, câmeras e testemunha contradizem versão de suicídio A investigação também analisa os laudos produzidos pela Polícia Técnico‑Científica. Já estão concluídos: Laudo necroscópico: causa da morte por traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça. Também identificou lesões no rosto e pescoço, compatíveis com pressão digital e marcas de unhas, confirmadas no primeiro exame e na exumação. Laudo residuográfico: não detectou pólvora nas mãos do coronel ou de Gisele — o que gera estranheza na hipótese de suicídio. Laudo da trajetória do tiro: de baixo para cima. Ainda estão pendentes de juntada ao inquérito o laudo toxicológico, que determinará se Gisele consumiu alguma substância, e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já adiantaram que encontraram marcas de sangue no banheiro, o que também causou estranheza já que Gisele foi encontrada morta em outro cômodo. Paralelamente à apuração da Polícia Civil, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após receber denúncias anônimas relatando que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente‑coronel. As investigações continuam em andamento. PM Gisele Alves Santana foi encontrada morta em casa na cidade de São Paulo. Reprodução/TV Globo/Fantástico